MINO CARTA. Os interesses dos impérios e os nossos. Ao ler os jornalões nesta semana, dos editoriais aos textos ditor jornalísticos, sem omitir as colunas, sobretudo as de O Globo, me atrevi a perguntar aos meus perplexos botões... -
25/05/2010
Mino Carta
CartaCapital
Ao ler os jornalões na manhã de
segunda 17, dos editoriais aos textos ditos jornalísticos, sem omitir
as colunas, sobretudo as de O Globo, me atrevi a perguntar aos meus
perplexos botões se Lula não seria um agente, ocidental e duplo, a
serviço do Irã. Limitaram-se a responder soturnamente com uma frase de
Raymundo Faoro: “A elite brasileira é entreguista”.
Entendi a mensagem. A elite
brasileira aceita com impávida resignação o papel reservado ao País há
quase um século, de súdito do Império. Antes, foi de outros. Súdito por
séculos, embora graúdo por causa de suas dimensões e infindas
potencialidades, destacado dentro do quintal latino-americano. Mas
subordinado, sempre e sempre, às vontades do mais forte.
Para citar eventos
recentíssimos, me vem à mente a foto de Fernando Henrique Cardoso,
postado dois degraus abaixo de Bill Clinton, que lhe apoia as mãos
enormes sobre os ombros, em sinal de tolerante proteção e imponência
inescapável. O americano sorri, condescendente. O brasileiro gargalha.
O presidente que atrelou o Brasil ao mando neoliberal e o quebrou três
vezes revela um misto de lisonja e encantamento servil. A alegria de
ser notado. Admitido no clube dos senhores, por um escasso instante.
Não pretendo aqui celebrar o
êxito da missão de Lula e Erdogan. Sei apenas que em país nenhum do
mundo democrático um presidente disposto a buscar o caminho da paz não
contaria, ao menos, com o respeito da mídia. Aqui não. Em perfeita
sintonia, o jornalismo pátrio enxerga no presidente da República, um
ex-metalúrgico que ousou demais, o surfista do exibicionismo, o devoto
da autopromoção a beirar o ridículo. Falamos, porém, é do chefe do
Estado e do governo do Brasil. Do nosso país. E a esperança da mídia é
que se enrede em equívocos e desatinos.
Não há entidade, instituição,
setor, capaz de representar de forma mais eficaz a elite brasileira do
que a nossa mídia. Desta nata, creme do creme, ela é, de resto, o rosto
explícito. E a elite brasileira fica a cada dia mais anacrônica, como a
Igreja do papa Ratzinger. Recusa-se a entender que o tempo passa, ou
melhor, galopa. Tudo muda, ainda que nem sempre a galope. No entanto, o
partido da mídia nativa insiste nos vezos de antanho, e se arma,
compacto, diante daquilo que considera risco comum. Agora, contra a
continuidade de Lula por meio de Dilma.
Imaginemos o que teriam
estampado os jornalões se na manhã da segunda 17, em lugar de Lula, o
presidente FHC tivesse passado por Teerã? Ele, ou, se quiserem, uma
neoudenista qualquer? Verifiquem os leitores as reações midiáticas à
fala de Marta Suplicy a respeito de Fernando Gabeira, um dos
sequestradores do embaixador dos Estados Unidos em 1969. Disse a
ex-prefeita de São Paulo: por que só falam da “ex-guerrilheira” Dilma,
e não dele, o sequestrador?
A pergunta é cabível, conquanto
Gabeira tenha se bandeado para o outro lado enquanto Dilma está longe
de se envergonhar do seu passado de resistência à ditadura, disposta a
aderir a uma luta armada da qual, de fato, nunca participou ao vivo.
Nada disso impede que a chamem de guerrilheira, quando não terrorista.
Quanto a Gabeira, Marta não teria lhe atribuído o papel exato que de
fato desempenhou, mas no sequestro esteve tão envolvido a ponto de
alugar o apartamento onde o sequestrado ficaria aprisionado. E com os
demais implicados foi desterrado pela ditadura.
Por que não catalogá-lo, como
se faz com Dilma? Ocorre que o candidato ao governo do Rio de Janeiro
perpetrou outra adesão. Ficou na oposição a Lula, primeiro alvo antes
de sua candidata. Cabe outro pensamento: em qual país do mundo
democrático a mídia se afinaria em torno de uma posição única ao atirar
contra um único alvo? Só no Brasil, onde os profissionais do jornalismo
chamam os patrões de colegas.
Até que ponto o fenômeno atual
repete outros tantos do passado, ou, quem sabe, acrescenta uma pedra à
construção do monumento? A verificar, no decorrer do período. Vale,
contudo, anotar o comportamento dos jornalões em relação às pesquisas
eleitorais. Os números do Vox Populi e da Sensus, a exibirem, na melhor
das hipóteses para os neoudenistas, um empate técnico entre candidatos,
somem das manchetes para ganhar algum modesto recanto das páginas
internas.
Recôndito espaço. Ao mesmo
tempo Lula, pela enésima vez, é condenado sem apelação ao praticar uma
política exterior independente em relação aos interesses do Império.
Recomenda-se cuidado: a apelação vitoriosa ameaça vir das urnas.